quarta-feira, 18 de março de 2015

Valandil - Capítulo 1

A DESPEDIDA


        Uma música suave tocava ao fundo, enquanto Milena caminhava entre as árvores do clube. Bem perto havia uma bela festa, com várias pessoas e ela foi atraída para perto da música. À medida que caminhava, notou algumas pessoas conhecidas, no entanto parecia que não se recordavam dela pois não notaram sua presença. Quanto mais próximo chegava, reconhecia mais pessoas, inclusive amigos e familiares próximos. Nem mesmo seus familiares a notaram. Pôs a mão no ombro de sua mãe; ela virou-se em direção à Milena, sorriu, deu um abraço e se despediu com um beijo, apesar de ter continuado no mesmo local em que estava.
        Só então Milena se deu conta de que todas as pessoas ali já haviam passado em sua vida. Alguns  chegavam a olhá-la, sorrir e acenar um adeus. Ela se dirigiu a um banco talhado em um tronco e se sentou, pensativa. Sentia realmente que estava dando adeus a todos eles. Dentro de seu coração, sabia que aquela vida não lhe pertencia mais.
        Milena abriu os olhos e encarou o teto de seu quarto. Olhou para o celular e viu que faltavam apenas dois minutos para o despertador tocar. Seu relógio biológico era quase infalível, já habituado à estafante rotina de trabalho e faculdade. Tentado lembrar-se de seu sonho, ela percebeu que as imagens escapavam-lhe à mente como se fosse água pelas mãos. Antes mesmo de desligar o despertador para que não tocasse, o sonho todo já tinha sumido.
       O dia foi normal, como todos os outros: foi para o trabalho e depois para a faculdade. No intervalo entre asas, foi notificada que o professor de Filosofia não iria dar as duas últimas aulas. Resolveu ir para a biblioteca; se fosse para casa, seus pais não a deixariam fazer os trabalhos e ela realmente precisava do tempo para pôr as tarefas da faculdade em dia. Na biblioteca, encontrou seu amigo Roberto e os dois começaram a fazer o trabalho juntos. Um tempo depois, eles foram para a lanchonete e o sonho voltou nítido. Ela lhe contou o sonho e ele disse:
        - Milena, vamos pra minha casa, preciso conversar em particular.
        - Não dá, Roberto, eu estou cheia de coisas pra fazer.
        Ele não lhe deu muita chance, puxou-a pela mão e disse enquanto caminhavam:
     - O que temos pra conversar é muito mais importante do que qualquer coisa que você possa imaginar.
    Os dois caminharam rapidamente até o carro de Roberto; ela resmungou algumas palavras em protesto mas ele não se abalou. Ao entrarem no carro, ele disse:
        - Você se lembra da vez que conversou com Kaleth?
        Sem dúvidas que ela lembrava. Um tempo depois que se conheceram, ela lhe disse que era espírita e desde então sempre conversavam sobre o mundo espiritual. Algumas semanas antes, o guardião de Roberto havia falado com ela através dele. Ele se dizia um dragão, mas ela sabia que era apenas um espírito zombeteiro tentando ludibriála.
        - Lembro sim.
        Ele não respondeu.  Permaneceu em silêncio,  exceto por algumas palavras que usou para conduzi-la à sua casa. Ao chegarem,  ela sentou em uma cadeira, enquanto ele arrumava a mesa. Colocou uma toalha branca, uma vela acesa e um crucifixo.
        - Esse sonho foi um sinal. Não achei até agora que você seria indicada para a missão. Antes de revelar qualquer coisa,  preciso saber: você aceita ser ilumimada, de modo que o véu caia e você passe a ter toda a verdade? Saiba que não tem volta.
        - Nossa, Rô, isso parece Matrix. Além disso, como posso escolher algo que não faço a menor ideia do que você está falando?
        - Ora, Milena, no fundo você sabe o que é. Aceita ou não?
        Ela respirou fundo.  Sabia que já tinha a resposta Sua curiosidade sempre foi seu maior defeito e maior qualidade.
        - Acho que a minha vida inteira foi um preparo para esse momento. É claro que eu aceito.
        - Muito bem.  O seu sonho significa que acabou uma etapa na sua vida; você dará adeus à sua vida como a conhece. Esse caminho é solitário, porque não podemos falar absolutamente nada que venha a acontecer.
        Ele explicou que as habilidades iriam começar a aparecer agora que ela era uma ilumimada. Ela deveria falar com seu anjo da guarda e seguir suas instruções. Ela também agora tinha acesso a todo o conhecimento compartilhado entre ele e seu anjo. Na verdade, Kaleth era um anjo, não um espírito zombeteiro como ela havia imaginado.
        - Ok, minha primeira pergunta é se existe reencarnação.
        - Existe,  porém não como você a concebe. A alma é algo puro, que não pode se submeter a múltiplas reencarnações.  Por isso é algo muito raro, que depende da aprovação de Deus com um propósito que outras almas não seriam capazem de realizar.
        Essa resposta a chocou. Não sabia se acreditava ou não, pois não era essa a resposta esperada. Passou grande parte de sua vida acreditando na filosofia espírita, que era tão lógica, respondia quade todas as suas dúvidas existenciais, que era inaceitável ouvir isso.
        Como se Roberto fosse capaz de ler seus pensamentos,  disse:
        - Não se preocupe com as dúvidas. Elas existem e sempre existirão, não importa quantas provas tivermos. Apenas viva sua vida e perceberá que ela não é mais a mesma. Um último recado importante: anote tudo, não confie em sua memória. 

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