quinta-feira, 26 de março de 2015

Valandil - capítulo 3


Primeiras Instruções


        Vários dias se passaram sem que Milena tivesse outro contato com seu anjo da guarda. Ela já estava começando a desacreditar no que havia acontecido, quando Roberto falou:
        - Amanhã de manhã na minha casa, sem falta. Precisamos conversar.
        Ele estava muito estranho desde a última vez em que ela estivera em sua casa. Não era mais aquele amigo doce, prestativo. Andava sempre preocupado, pálido e com olheiras e ela sabia que era por sua causa. 
        No dia seguinte, Milena bateu na porta da casa dele, pois a campainho há muito havia quebrado. Quem a recebeu foi sua irmã, Fernanda. Ela era muito bonita, com olhos cor de mel, corpo esguio e sempre um sorriso brilhante em seu rosto. Ela me abraçou e começou a falar desesperadamente:
       - Minha irmã, como você está reagindo? Você parece tão calma com isso tudo; quando o Rô me iluminou, quase entrei em choque. Fiquei muito tempo com medo, demorou pra eu aceitar tudo isso. Principalmente aceitar o fato de que sou uma sacerdotisa de Avalon.
       Eu mal entendi o que ela estava dizendo. Quer dizer que eu não era a única a ser iluminada pelo Roberto? Ela sabia de tudo? Por que ela me chamou de irmã? E que história era essa de que ela era de Avalon? Fiquei confusa e ela percebeu a expressão no meu rosto.
       - Vem cá, minha irmã. - ela me pôs sentada no sofá. Percebi que novamente a mesa estava posta, como no dia em que eu tinha sido iluminada. - O Rô já está vindo, ele está terminando de se trocar. Você aceita um café?
       Eu acenei com a cabeça. Ela sumiu rapidamente entre a porta da cozinha e me trouxe uma xícara com um café muito gostoso.
       - Kaleth adora o meu café. Sempre que ele vem, faço questão de servi-lo, porque ele fica muito satisfeito.
       Pensei que ela poderia estar brincando, mas pela expressão em seu rosto ela realmente acreditava naquilo. Roberto chegou e nos conduziu à mesa. Ele abaixou a cabeça; quando a levantou, sua voz estava mais grave e imponente. Seu corpo reluzia, apesar da expressão séria.
       - Bom dia. - virando-se para mim. - Você já me conhece, então dispenso apresentações. Bem-vinda ao mundo dos iluminados. A missão de vocês três é muito importante e nós precisamos de toda sua colaboração e esforço. A vida da humanidade depende disso.
       Percebi que era Kaleth falando, mas nunca o tinha ouvido falar tão seriamente. Ajeitei-me na mesa e disse:
        - Desculpe, mas não sei do que você está falando.
        Ele me olhou com uma expressão que me pareceu irritada e me encolhi na cadeira, mas falou  calmamente:
        - Antes que eu possa falar da missão, preciso saber se você já leu o Apocalipse.
        Eu balancei a cabeça num gesto negativo e ele continuou:
        - Sua próxima tarefa é ler o Apocalipse, então. Vocês precisam se encontrar no mínimo uma vez por semana. O ideal é que sejam três encontros, mas se não der, garantam que seja pelo menos um. Milena, faça uma lista de coisas que você precisa providenciar. - Ela pegou papel e caneta. - Cinco cadernetas, para você anotar sempre que algo acontecer, vidrinhos com sal grosso e vidrinhos com água benta, um terço e um revólver com balas de prata.
       Ela estranhou alguns itens, mas não se atreveu a questionar, mas ficou desesperada só de imaginar que teria que andar com uma arma. E ainda mais com balas de prata; ela iria lutar contra lobisomens? Que mistura estranha dos folclores! Isso estava fugindo do que ela esperava. 
        - Sei que você tem o hábito de meditar e já está com essa habilidade avançada em relação aos humanos, mas você precisa deixar seu anjo da guarda te guiar. Ele irá lhe ensinar e retirar seus vícios. - Virando-se para Fernanda, ele continuou. - Você não deve falar as suas experiências a ela por enquanto, porque ela é muito influenciável. Deixe que ela viva sua própria jornada.
        Falando isso, ele bufou e Milena teve a impressão de ter visto um pequeno jato de fogo saindo de suas narinas. Claro que aquilo era imaginação, mas ultimamente ela já não duvidava de muita coisa. Ele se despediu e a cabeça de Roberto balançou, seu olhos fecharam e ele suspirou. Abriu os olhos e perguntou o que havia acontecido. Fernanda contou-lhe os principais tópicos da conversa, enquanto meus pensamentos viajavam. Seu mundo estava virando de cabeça pra baixo e nem sequer havia imaginado isso.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Revolução em Tarin - Capítulo 1

Sonho Realizado


Fazia muito tempo que Tomlek desejava passear no único museu existente em seu planeta natal, Achlan. Poucas coisas o fascinavam tanto como ver as esculturas moldadas por seus antepassados e ele próprio desejava que um dia seus descendentes pudessem avaliar seu esforço. Agora ele estava ali, naquele local rodeado de coisas antigas, as quais só havia visto por pequenos hologramas na sessão reservada da biblioteca da escola, mesmo assim com muito custo. Afinal, o acesso àqueles arquivos era proibido e na época ele precisara de uma autorização de dois professores para utilizá-los em seu trabalho.
      Sua mãe acompanhava-o apreensiva; fora designada para acompanhá-lo, na tentativa de evitar más influências geradas por aquele local desprezível. Afinal, por que insistiam em manter aberto aquela fonte de aberrações e péssimas idéias? Aquilo estava fora dos limites de sua compreensão e ela achou melhor não se questionar, para poder se concentrar em sua tarefa.
      Ao lado deles, caminhava uma oficial de justiça extremamente elegante. Seus cabelos escuros presos em um coque contrastavam com sua pele alva. Trajava um uniforme vermelho, impecavelmente asseado. Seus passos assemelhavam-se mais aos de uma máquina do que de um ser vivo – resultado de anos de treinamento.
      Há dois anos Tomlek entrara com o pedido para poder visitar o museu. A requisição fora julgada absurda e negada tão logo fora apresentada. Oras, por que razão um médico culto e eficiente iria querer visitar um local como aquele? Não, o pedido era inconsistente e sem fundamento. Foram necessários mais do que contra-argumentos e pessoas de influência para lhe concederem o pedido. Após muito tempo e desgaste emocional, finalmente ele os venceu pela insistência.
      Era uma oportunidade única, sabia muito bem. Era um privilegiado e poucos em sua existência teriam sequer a chance de pensar nesses assuntos. Agora era o momento de aproveitar. Passou aproximadamente meia hora nas salas de pinturas, fósseis e outros artefatos os quais ele não fazia idéia do que poderiam ser. Não quis perder mais tempo, precisava passar o maior período possível na sala das esculturas. Ah, que magnífico! Parecia um sonho. O local era muito mais belo do que em seus pensamentos. As paredes tinham um leve tom azulado, que deixavam as peças com um brilho celestial. A imensidão do local abrigava todo o passado que um dia abrigara pessoas muito menos evoluídas, mas quase sem dúvidas muito mais felizes.
      Tinha plena consciência de cada uma das esculturas presentes no recinto. Bastava olhar para elas que suas histórias eram acrescentadas ao seu conhecimento. Tomlek estava acostumado àquela sensação. Todos os seres do nível tachla eram forçados a aprender os mais diversos tópicos através desse método. Obviamente era um procedimento rápido e ele próprio não conhecia outros meios, no entanto com apenas quinze anos de idade ele já era um renomado e respeitado neurocirurgião. A prática levou bem mais tempo para ser aprendida do que a teoria, mas em três anos de profissão já realizava as mais difíceis operações de sua especialidade.
      Agora ele utilizava aquele método inconscientemente para descobrir o máximo possível sobre seus antepassados e ao mesmo tempo apreciar aqueles belíssimos artefatos. Estava cansado de suas companhias. Amava sua mãe, mas ela jamais entenderia seu espírito revolucionário. No entanto, o que mais o incomodava era a presença indesejável daquela oficial de justiça. Sem dúvidas era uma mulher muito bonita, mas seu ar presunçoso e desdenhoso a tornavam uma companhia realmente indesejável. Foi ela quem trouxe Tomlek de volta à realidade, alegando que não era permitido passar mais do que duas horas em uma mesma sala do museu. Oras, não estava a par dessa nova regra, mas já havia saciado sua vontade. Não ofereceu resistência quando ela fez menção de conduzi-lo para fora do museu.

Valandil - Capítulo 2

Valandil

        O dia amanheceu e os raios solares entraram pela janela do quarto de Milena.  Ela havia chegado tão tarde em casa e tão espantada com tudo que havia acontecido na noite anterior que esqueceu de fechar a janela do quarto.  A luz do dia a despertodespertarou e ela percebeu que estava muito atrasada. Correu para o trabalho e estava tão apavorada que nem ouviu uma voz que falava com ela.
        Meia hora após chegar ao trabalho, percebeu que estava sem inspiração. Precisava ter ideias para apresentar um projeto  em um evento no fim de semana.  Os melhores projetos teriam sua execução financiada pela empresa e o dono da ideia seria o gerente. Era uma bela oportunidade e um sonho pular várias etapas de estágio à gerência,  mas esse era o dia que a empresa havia concedido para os colaboradores elaborarem seus projetos.
       Ela ouviu alguém chama-lá e se virou, mas ninguém parecia tê-a chamado. Achou que era alguma brincadeira de mal gosto e voltou-se para o computador. A cena repetiu-se mais duas vezes, até que ela ficou irritada.
        - Não precisa ficar irritada. Só porque você não me vê, não significa que não estou aqui.
      Então ela percebeu que a voz falava dentro de sua cabeça. Assustada, porém extremamente curiosa, Milena resolveu perguntar em pensamento quem era.
        "Meu nome é Valandil. Sou seu anjo da guarda."
        "É sério isso ou é alguma pegadinha?"
       "Você foi iluminada ontem à noite. Agora, sempre que quiser ou precisar,  pode falar comigo que eu lhe responderei."
         O celular tocou e ela atendeu:
        - Oi, mãe. Bom dia.
        - Oi, filha.  Fiquei preocupada porque ontem você voltou tarde e hoje perdeu a hora.
      - Eu estava fazendo trabalho da faculdade. Acho que fiquei tão cansada que não ouvi o despertador.
        - Ok, minha flor. Você sabe que estou aqui pra você e pode contar comigo.
        - É,  eu sei. Pode ficar tranquila.  Beijo, tchau, tchau.
        "Ok, se você é meu anjo da guarda, quer dizer que eu sou médium?"
        "Na verdade, não. Você é iluminada agora. No momento, você ainda não tem poderes, então eu estou te emprestando os meus. Por isso você pode falar comigo, mesmo não sendo médium."
        "Certo. Agora, eu preciso trabalhar, Depois a gente conversa."
        O dia passou tranquilamente, sem mais intercorrências. Na faculdade, encontrou Roberto, mas não tocaram no assunto. Ela até queria, mas ele deixou claro que ali não era o local adequado. Sua curiosidade foi aumentando e ela foi para casa, desistindo das últimas aulas. Sua mãe já estava dormindo e ela não pretendia acordá-la. Afastou o sofá, acendeu algumas velas em círculo, sentou-se na posição de lótus, fechou os olhos e começou a meditar. Sentiu a presença de Valandil e abriu os olhos, para tentar enxergá-lo, no entanto não o viu.
       "Você ainda não consegue me enxergar porque você está me bloqueando. Há muito medo em seu coração."
       "Bom, estou muito confusa, é normal estar com medo."
       "Posso mostrar um pouco de mim? Vou ter que passar por cima da sua vontade subconsciente de não me ver."
       "Claro que pode."
       Com os olhos fechados, ela via apenas um breu. À medida que o tempo passou, uma luz muito forte cegou-a momentaneamente e ela viu a silhueta de Valandil, porém quase disforme. Ela abriu os olhos, sem entender e tentou contactá-lo novamente, mas desta vez ele não respondeu. Pensou em chamá-lo em voz alta, mas ficou com receio de acordar sua mãe. Tentou repetidas vezes, mas sem sucesso. Cansada e frustrada, ela anotou a experiência em um bloquinho de notas e foi dormir.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Valandil - Capítulo 1

A DESPEDIDA


        Uma música suave tocava ao fundo, enquanto Milena caminhava entre as árvores do clube. Bem perto havia uma bela festa, com várias pessoas e ela foi atraída para perto da música. À medida que caminhava, notou algumas pessoas conhecidas, no entanto parecia que não se recordavam dela pois não notaram sua presença. Quanto mais próximo chegava, reconhecia mais pessoas, inclusive amigos e familiares próximos. Nem mesmo seus familiares a notaram. Pôs a mão no ombro de sua mãe; ela virou-se em direção à Milena, sorriu, deu um abraço e se despediu com um beijo, apesar de ter continuado no mesmo local em que estava.
        Só então Milena se deu conta de que todas as pessoas ali já haviam passado em sua vida. Alguns  chegavam a olhá-la, sorrir e acenar um adeus. Ela se dirigiu a um banco talhado em um tronco e se sentou, pensativa. Sentia realmente que estava dando adeus a todos eles. Dentro de seu coração, sabia que aquela vida não lhe pertencia mais.
        Milena abriu os olhos e encarou o teto de seu quarto. Olhou para o celular e viu que faltavam apenas dois minutos para o despertador tocar. Seu relógio biológico era quase infalível, já habituado à estafante rotina de trabalho e faculdade. Tentado lembrar-se de seu sonho, ela percebeu que as imagens escapavam-lhe à mente como se fosse água pelas mãos. Antes mesmo de desligar o despertador para que não tocasse, o sonho todo já tinha sumido.
       O dia foi normal, como todos os outros: foi para o trabalho e depois para a faculdade. No intervalo entre asas, foi notificada que o professor de Filosofia não iria dar as duas últimas aulas. Resolveu ir para a biblioteca; se fosse para casa, seus pais não a deixariam fazer os trabalhos e ela realmente precisava do tempo para pôr as tarefas da faculdade em dia. Na biblioteca, encontrou seu amigo Roberto e os dois começaram a fazer o trabalho juntos. Um tempo depois, eles foram para a lanchonete e o sonho voltou nítido. Ela lhe contou o sonho e ele disse:
        - Milena, vamos pra minha casa, preciso conversar em particular.
        - Não dá, Roberto, eu estou cheia de coisas pra fazer.
        Ele não lhe deu muita chance, puxou-a pela mão e disse enquanto caminhavam:
     - O que temos pra conversar é muito mais importante do que qualquer coisa que você possa imaginar.
    Os dois caminharam rapidamente até o carro de Roberto; ela resmungou algumas palavras em protesto mas ele não se abalou. Ao entrarem no carro, ele disse:
        - Você se lembra da vez que conversou com Kaleth?
        Sem dúvidas que ela lembrava. Um tempo depois que se conheceram, ela lhe disse que era espírita e desde então sempre conversavam sobre o mundo espiritual. Algumas semanas antes, o guardião de Roberto havia falado com ela através dele. Ele se dizia um dragão, mas ela sabia que era apenas um espírito zombeteiro tentando ludibriála.
        - Lembro sim.
        Ele não respondeu.  Permaneceu em silêncio,  exceto por algumas palavras que usou para conduzi-la à sua casa. Ao chegarem,  ela sentou em uma cadeira, enquanto ele arrumava a mesa. Colocou uma toalha branca, uma vela acesa e um crucifixo.
        - Esse sonho foi um sinal. Não achei até agora que você seria indicada para a missão. Antes de revelar qualquer coisa,  preciso saber: você aceita ser ilumimada, de modo que o véu caia e você passe a ter toda a verdade? Saiba que não tem volta.
        - Nossa, Rô, isso parece Matrix. Além disso, como posso escolher algo que não faço a menor ideia do que você está falando?
        - Ora, Milena, no fundo você sabe o que é. Aceita ou não?
        Ela respirou fundo.  Sabia que já tinha a resposta Sua curiosidade sempre foi seu maior defeito e maior qualidade.
        - Acho que a minha vida inteira foi um preparo para esse momento. É claro que eu aceito.
        - Muito bem.  O seu sonho significa que acabou uma etapa na sua vida; você dará adeus à sua vida como a conhece. Esse caminho é solitário, porque não podemos falar absolutamente nada que venha a acontecer.
        Ele explicou que as habilidades iriam começar a aparecer agora que ela era uma ilumimada. Ela deveria falar com seu anjo da guarda e seguir suas instruções. Ela também agora tinha acesso a todo o conhecimento compartilhado entre ele e seu anjo. Na verdade, Kaleth era um anjo, não um espírito zombeteiro como ela havia imaginado.
        - Ok, minha primeira pergunta é se existe reencarnação.
        - Existe,  porém não como você a concebe. A alma é algo puro, que não pode se submeter a múltiplas reencarnações.  Por isso é algo muito raro, que depende da aprovação de Deus com um propósito que outras almas não seriam capazem de realizar.
        Essa resposta a chocou. Não sabia se acreditava ou não, pois não era essa a resposta esperada. Passou grande parte de sua vida acreditando na filosofia espírita, que era tão lógica, respondia quade todas as suas dúvidas existenciais, que era inaceitável ouvir isso.
        Como se Roberto fosse capaz de ler seus pensamentos,  disse:
        - Não se preocupe com as dúvidas. Elas existem e sempre existirão, não importa quantas provas tivermos. Apenas viva sua vida e perceberá que ela não é mais a mesma. Um último recado importante: anote tudo, não confie em sua memória.