Sonho Realizado
Fazia muito tempo que Tomlek desejava passear no único museu existente em seu planeta natal, Achlan. Poucas coisas o fascinavam tanto como ver as esculturas moldadas por seus antepassados e ele próprio desejava que um dia seus descendentes pudessem avaliar seu esforço. Agora ele estava ali, naquele local rodeado de coisas antigas, as quais só havia visto por pequenos hologramas na sessão reservada da biblioteca da escola, mesmo assim com muito custo. Afinal, o acesso àqueles arquivos era proibido e na época ele precisara de uma autorização de dois professores para utilizá-los em seu trabalho.
Sua mãe acompanhava-o apreensiva; fora designada para acompanhá-lo, na tentativa de evitar más influências geradas por aquele local desprezível. Afinal, por que insistiam em manter aberto aquela fonte de aberrações e péssimas idéias? Aquilo estava fora dos limites de sua compreensão e ela achou melhor não se questionar, para poder se concentrar em sua tarefa.
Ao lado deles, caminhava uma oficial de justiça extremamente elegante. Seus cabelos escuros presos em um coque contrastavam com sua pele alva. Trajava um uniforme vermelho, impecavelmente asseado. Seus passos assemelhavam-se mais aos de uma máquina do que de um ser vivo – resultado de anos de treinamento.
Há dois anos Tomlek entrara com o pedido para poder visitar o museu. A requisição fora julgada absurda e negada tão logo fora apresentada. Oras, por que razão um médico culto e eficiente iria querer visitar um local como aquele? Não, o pedido era inconsistente e sem fundamento. Foram necessários mais do que contra-argumentos e pessoas de influência para lhe concederem o pedido. Após muito tempo e desgaste emocional, finalmente ele os venceu pela insistência.
Era uma oportunidade única, sabia muito bem. Era um privilegiado e poucos em sua existência teriam sequer a chance de pensar nesses assuntos. Agora era o momento de aproveitar. Passou aproximadamente meia hora nas salas de pinturas, fósseis e outros artefatos os quais ele não fazia idéia do que poderiam ser. Não quis perder mais tempo, precisava passar o maior período possível na sala das esculturas. Ah, que magnífico! Parecia um sonho. O local era muito mais belo do que em seus pensamentos. As paredes tinham um leve tom azulado, que deixavam as peças com um brilho celestial. A imensidão do local abrigava todo o passado que um dia abrigara pessoas muito menos evoluídas, mas quase sem dúvidas muito mais felizes.
Tinha plena consciência de cada uma das esculturas presentes no recinto. Bastava olhar para elas que suas histórias eram acrescentadas ao seu conhecimento. Tomlek estava acostumado àquela sensação. Todos os seres do nível tachla eram forçados a aprender os mais diversos tópicos através desse método. Obviamente era um procedimento rápido e ele próprio não conhecia outros meios, no entanto com apenas quinze anos de idade ele já era um renomado e respeitado neurocirurgião. A prática levou bem mais tempo para ser aprendida do que a teoria, mas em três anos de profissão já realizava as mais difíceis operações de sua especialidade.
Agora ele utilizava aquele método inconscientemente para descobrir o máximo possível sobre seus antepassados e ao mesmo tempo apreciar aqueles belíssimos artefatos. Estava cansado de suas companhias. Amava sua mãe, mas ela jamais entenderia seu espírito revolucionário. No entanto, o que mais o incomodava era a presença indesejável daquela oficial de justiça. Sem dúvidas era uma mulher muito bonita, mas seu ar presunçoso e desdenhoso a tornavam uma companhia realmente indesejável. Foi ela quem trouxe Tomlek de volta à realidade, alegando que não era permitido passar mais do que duas horas em uma mesma sala do museu. Oras, não estava a par dessa nova regra, mas já havia saciado sua vontade. Não ofereceu resistência quando ela fez menção de conduzi-lo para fora do museu.
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