Primeiras Instruções
Vários dias se passaram sem que Milena tivesse outro contato com seu anjo da guarda. Ela já estava começando a desacreditar no que havia acontecido, quando Roberto falou:
- Amanhã de manhã na minha casa, sem falta. Precisamos conversar.
Ele estava muito estranho desde a última vez em que ela estivera em sua casa. Não era mais aquele amigo doce, prestativo. Andava sempre preocupado, pálido e com olheiras e ela sabia que era por sua causa.
No dia seguinte, Milena bateu na porta da casa dele, pois a campainho há muito havia quebrado. Quem a recebeu foi sua irmã, Fernanda. Ela era muito bonita, com olhos cor de mel, corpo esguio e sempre um sorriso brilhante em seu rosto. Ela me abraçou e começou a falar desesperadamente:
- Minha irmã, como você está reagindo? Você parece tão calma com isso tudo; quando o Rô me iluminou, quase entrei em choque. Fiquei muito tempo com medo, demorou pra eu aceitar tudo isso. Principalmente aceitar o fato de que sou uma sacerdotisa de Avalon.
Eu mal entendi o que ela estava dizendo. Quer dizer que eu não era a única a ser iluminada pelo Roberto? Ela sabia de tudo? Por que ela me chamou de irmã? E que história era essa de que ela era de Avalon? Fiquei confusa e ela percebeu a expressão no meu rosto.
- Vem cá, minha irmã. - ela me pôs sentada no sofá. Percebi que novamente a mesa estava posta, como no dia em que eu tinha sido iluminada. - O Rô já está vindo, ele está terminando de se trocar. Você aceita um café?
Eu acenei com a cabeça. Ela sumiu rapidamente entre a porta da cozinha e me trouxe uma xícara com um café muito gostoso.
- Kaleth adora o meu café. Sempre que ele vem, faço questão de servi-lo, porque ele fica muito satisfeito.
Pensei que ela poderia estar brincando, mas pela expressão em seu rosto ela realmente acreditava naquilo. Roberto chegou e nos conduziu à mesa. Ele abaixou a cabeça; quando a levantou, sua voz estava mais grave e imponente. Seu corpo reluzia, apesar da expressão séria.
- Bom dia. - virando-se para mim. - Você já me conhece, então dispenso apresentações. Bem-vinda ao mundo dos iluminados. A missão de vocês três é muito importante e nós precisamos de toda sua colaboração e esforço. A vida da humanidade depende disso.
Percebi que era Kaleth falando, mas nunca o tinha ouvido falar tão seriamente. Ajeitei-me na mesa e disse:
- Desculpe, mas não sei do que você está falando.
Ele me olhou com uma expressão que me pareceu irritada e me encolhi na cadeira, mas falou calmamente:
- Antes que eu possa falar da missão, preciso saber se você já leu o Apocalipse.
Eu balancei a cabeça num gesto negativo e ele continuou:
- Sua próxima tarefa é ler o Apocalipse, então. Vocês precisam se encontrar no mínimo uma vez por semana. O ideal é que sejam três encontros, mas se não der, garantam que seja pelo menos um. Milena, faça uma lista de coisas que você precisa providenciar. - Ela pegou papel e caneta. - Cinco cadernetas, para você anotar sempre que algo acontecer, vidrinhos com sal grosso e vidrinhos com água benta, um terço e um revólver com balas de prata.
Ela estranhou alguns itens, mas não se atreveu a questionar, mas ficou desesperada só de imaginar que teria que andar com uma arma. E ainda mais com balas de prata; ela iria lutar contra lobisomens? Que mistura estranha dos folclores! Isso estava fugindo do que ela esperava.
- Sei que você tem o hábito de meditar e já está com essa habilidade avançada em relação aos humanos, mas você precisa deixar seu anjo da guarda te guiar. Ele irá lhe ensinar e retirar seus vícios. - Virando-se para Fernanda, ele continuou. - Você não deve falar as suas experiências a ela por enquanto, porque ela é muito influenciável. Deixe que ela viva sua própria jornada.
Falando isso, ele bufou e Milena teve a impressão de ter visto um pequeno jato de fogo saindo de suas narinas. Claro que aquilo era imaginação, mas ultimamente ela já não duvidava de muita coisa. Ele se despediu e a cabeça de Roberto balançou, seu olhos fecharam e ele suspirou. Abriu os olhos e perguntou o que havia acontecido. Fernanda contou-lhe os principais tópicos da conversa, enquanto meus pensamentos viajavam. Seu mundo estava virando de cabeça pra baixo e nem sequer havia imaginado isso.